Festa do Milho: uma festa da autonomia alimentar

Auati, abati ou avati é o nome tupi do milho utilizado na alimentação à mais de 5 mil anos que nasceu na América, mais precisamente no México, e se espalhou pelo mundo. Essas milenares sementes de milho indígena são preservadas e utilizadas pelo povo guarani. Sua qualidade especial de resistir geneticamente às sementes transgênicas garantem a autonomia alimentar aos guaranis. O cereal é muito utilizado na alimentação e por isso festejada na época da semeadura e da colheita. Na região da Serra da Bocaina, a aldeia de Araponga comemora o cereal nos dois festejos anuais que acontecem nos meses de janeiro e agosto.

Nos dias 25 a 31 de janeiro, os guaranis mbyá da Tekoá Guyraitapu Pygua, conhecida como Aldeia Araponga, festejaram a colheita das sementes crioulas de milho. Festa de intensas manifestações de agradecimentos e batismo dos indígenas que conhecem seus nomes no interior da Casa de Reza da aldeia. Localizada na sertão de Paraty, RJ, a Aldeia Araponga é de difícil acesso e a manutenção de sua agricultura é questão de sobrevivência de seus moradores. Durante o dia conversas e trocas de saberes foram realizadas com os outros guaranis mbyá de Santa Catarina e São Paulo. A noite os tambores angua'pú, a rabeca de três cordas ravé, o violão e o maracá agitavam as canções de agradecimento em louvor a Nhanderú etê, o deus de forma humana cujos olhos refletem uma infinidade de cores.

Nesses cinco dias de intensas trocas gastronômicas, culturais e religiosas, pode-se ver no interior da Casa da Reza o saldo de uma colheita farta de milho, amendoim e mel. Pãezinhos feitos com farinha de milho, o xipa (se diz tipá), mel acondicionados em troncos de bambus e muitas espigas de cores variadas de milho fruto da diversidade do cruzamentos realizados ao longo dos tempos, mostravam aos visitantes a fartura de um importante trabalho realizado pelo Cacique Agostinho: a manutenção da autonomia alimentar através da preservação das sementes guaranis. Para o engenheiro florestal Fábio Reis, pesquisador do Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina (OTSS), “as sementes são patrimônio genético das comunidades muito importantes para segurança e soberania alimentar desses povos, carregando consigo o conhecimento associado as praticas da produção de alimento, mais adaptadas as áreas de plantio das comunidades que possuem essa relação”. Para o cacique Agostinho essas sementes são o fruto do trabalho de seu avó, “comi muitos milhos branquinhos e xipa (se diz xipa (se diz tipá))s feitos com a farinha do milho que meu avô plantava”, explica. Para o cacique Agostinho essa tradição se mantém porque “meu avô batizava o milho para Nhanderú etê e eu também faço isso. Assim tenho uma grande quantidade de sementes e posso dar um pouquinho para os outros guaranis que vem nos visitar.”

Por Comunicação Fórum de Comunidades Tradicionais

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