Canto de 13 de Maio - uma nota de repúdio ao governo golpista


Preservar é Resistir - Canto 13 de Maio - Repúdio Governo Golpista

No dia 13 de maio de 2016, mais de 60 pessoas de 14 comunidades caiçaras, indígenas guarani e quilombolas de Angra dos Reis, Paraty e Ubatuba se reuniram e conversaram sobre a situação política do país. Registramos aqui um pouco das palavras fortes da nossa roda de diálogo.

Como tambor. Como tambor ressoa no ar e encontra um coração batendo, estas nossas palavras que lançamos em roda, agora escrevemos, para que possam se assentar no peito dos que estão sofrendo.

Foram três golpes. Um numa pessoa, chamada Presidenta Dilma Rousseff. Outro num partido, chamado dos Trabalhadores. E o terceiro, mais grave, no Estado Democrático de Direito.

O primeiro golpe é carregado de discursos machistas dos que não suportam uma Mulher no poder, muito menos uma mulher que não se submete aos padrões de beleza opressores, nem aos padrões de “lugar” na sociedade. Querem mulheres belas, recatadas, do lar... e como primeiras damas. Não as querem Presidentas.

O segundo golpe é contra o Partido dos Trabalhadores. Um partido que teve erros e acertos. Entre os erros, está o envolvimento com esquemas de corrupção e a estratégia de “governabilidade” fazendo muitas concessões aos que sempre estiveram no poder, desde a invasão dos europeus nestas terras indígenas.

Mas também é o partido que, quando governo, retirou dezenas de milhões da pobreza; deu acesso ao ensino superior para os jovens vindos de casas pobres, famílias negras e aldeias indígenas; regulamentou os direitos fundamentais, inclusive territoriais, dos povos e comunidades tradicionais; e muitos outros acertos.

Um partido que teve muitos erros e muitos acertos, mas não está sendo julgado pelos seus erros. Está sendo golpeado para paralisar os seus acertos.

O Partido dos Trabalhadores apenas aproximou a Casa Grande da Senzala. E a Casa Grande não aceita nem esta aproximação.

A mídia monopolizada coloca a questão em termos errados. Perguntando: “você é contra a corrupção ou à favor do PT?” Pergunta assim para confundir. Como se ser contra o impeachment significasse ser à favor do PT. E como se ser à favor do PT significasse ser à favor da corrupção. Aqui, na nossa roda, unimos pessoas apartidárias e pessoas partidárias. Os partidários lutam não por um partido, lutam em um partido. E não em qualquer partido. Apenas em partidos que podem fortalecer nossa luta; nossa luta pelos direitos caiçaras, indígenas e quilombolas.

Sabemos que nenhum partido nos “salvará”. Nós é que conquistamos, conquistaremos, defendemos e defenderemos nossos direitos. Os apartidários lutam fora dos partidos, por estes mesmos direitos. Estamos unidos, contra a corrupção e contra o golpe, para defender o que já conquistamos e seguir em frente.

O terceiro golpe é o mais grave, contra o Estado Democrático de Direito. Um golpe contra as bases de uma sociedade democrática, que começamos construir desde 1985, com o fim da Ditadura Militar – ditadura que começou também com um golpe em março de 1964 e demorou 21 anos para acabar.

Agora em 2016, em um julgamento político, apoiado por uma mídia monopolizada e por um sistema judiciário seletivo, inventaram uma interpretação nova para um crime contra o orçamento e encaixaram a Presidenta Dilma Rousseff (e somente ela) neste “crime”. Não há crime cometido por Dilma Rousseff. Sem crime, impeachment é golpe. O... chamemos pelo que ele é... Golpista Michel Temer já assumiu o Palácio do Planalto. Não o reconhecemos e não o reconheceremos como presidente legítimo, caso este impeachment seja concretizado. No primeiro dia no poder, o Golpista Temer já extinguiu ministérios como o Ministério da Cultura, Ministério do Desenvolvimento Agrário e as Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Secretaria de Políticas para as Mulheres e a Secretaria de Direitos Humanos. Este ato causa tremendos retrocessos nos avanços que tivemos desde o Governo Lula na proteção das culturas populares, no reconhecimento de comunidades tradicionais e no combate ao racismo e ao machismo.

Olhando o “novo” governo Temer, vemos um ministério totalmente ocupado por homens brancos e ricos, sem diversidade, sem a menor conexão conosco – povos e comunidades tradicionais. Pelo contrário, vemos que um ministro do DEM (partido que tanto já fez para derrubar as leis que regulamentam os direitos quilombolas) será responsável pelo reconhecimento dos quilombos; vemos um ministro ruralista e comprometido com o agronegócio ser responsável pela reforma agrária e pelas políticas para a agricultura familiar; vemos no Ministério da Justiça um homem que tem no currículo o uso brutal de força policial contra estudantes secundaristas e movimentos sociais... e que agora será responsável pelas políticas: para as mulheres, de promoção da igualdade racial, e as de direitos humanos. Vemos um governo golpista colocando raposas para cuidar do galinheiro.

Mas sabemos:

Desesperança não serve para nada. Somos um povo guerreiro. Temos uma ancestralidade guerreira. Somos indígenas guerreiros. Somos quilombolas guerreiros. Somos caiçaras guerreiros. Sabemos que “quem geme é quem sente a dor.” Sabemos que nós, que sentimos a dor, resistiremos. E venceremos.

Somos um povo que sabe tomar um golpe no peito, gingar... e voltar mais forte.

Hoje, no dia 13 de maio, comemoramos o fim jurídico da escravidão. É uma data bonita, mas sabemos que, para nossa liberdade, mais vale o 20 de novembro de Zumbi dos Palmares. Nossa esperança não está no STF ou no Senado. Nossa esperança está em nós mesmos. É Zumbi quem chamamos.

Enganam-se os que pensam que destruíram Palmares. Quando mataram Zumbi, ele jogou a lança. Derrubaram um guerreiro, nasceram milhares. Existem milhares de Zumbis no Brasil hoje. Pensaram que destruíram Palmares, mas Palmares eram 20 mil pessoas. Apenas dispersaram Palmares. Existem centenas de Palmares no Brasil hoje.

Plenária Geral do FCT

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