FCT realiza reunião ampliada no Quilombo da Fazenda. Caiçaras, guaranis e quilombolas fortalecem sua

"No dia 13 de maio, cativeiro acabou

e os escravos gritaram: liberdade, senhor"

Três municípios, 60 pessoas, 14 comunidades, três etnias. Nos dias 13 e 14 de maio, no Quilombo da Fazenda (Ubatuba-SP), foi realizada uma reunião ampliada do Fórum das Comunidades Tradicionais de Angra dos Reis, Paraty e Ubatuba (FCT) em parceria com associação de moradores da comunidade. O encontro foi marcado por diálogos sobre: a crise política do país, a situação da agroecologia em cada comunidade, partilhas de experiências de turismo de base comunitária, resolução de conflitos fundiários específicos com unidades de conservação e especuladores imobiliários, luta pela educação indígena no Estado do RJ, resistência frente às ameaças sofridas pela aldeia Rio Pequeno (Paraty-RJ), fortalecimento do Conselho Municipal de Comunidades Quilombolas de Ubatuba e os impactos do pré-sal; além de histórias do griô Sr. Zé Pedro, danças, músicas, comidas quilombolas e um forte axé!

Participaram mais de 60 pessoas. Caiçaras, indígenas guarani e quilombolas vieram das terras indígenas de Sapukai, Rio Pequeno e Paraty-Mirim; dos quilombos do Campinho, Caçandoca, Fazenda e Camburi; e das comunidades caiçaras de São Gonçalo, Pouso da Cajaíba, Sono, Trindade, Sertão do Ubatumirim, Picinguaba e Camburi-Divisa. Alguns colaboradores técnicos do FCT também estiveram presentes.

Preservar é Resistir - Reunião ampliada FCT

Luta e resistência – a crise política nacional

A manhã do primeiro dia foi marcada pela troca de informações e opiniões sobre a situação atual do país. Em uma grande roda, todas e todos puderam se colocar com tranquilidade, demonstrando os pontos de convergência, as divergências, e construindo uma visão coletiva do panorama político do país, destacando suas consequências para o movimento das comunidades tradicionais. As expressões de cada participante foram sintetizadas em um texto único. Na plenária do dia seguinte, o texto foi discutido e uma versão final foi aprovada em consenso com o título: Canto de 13 de maio – nota de repúdio ao governo golpista (leia aqui).

“Quem geme é quem sente a dor, e essas pessoas com dinheiro não sabem o que passamos. Nessa briga de grandes, quem paga são os pequenos”, pontuou com sabedoria o mestre Zé Pedro (griô do Quilombo da Fazenda). E lembrou que, após muitos anos de luta, o quilombo só recebeu energia elétrica por meio do programa Luz Para Todos, durante o Governo Lula.

Preservar é Resistir - Roda de conversa seu Zé Fazenda

Foram pontuados alguns motivos de preocupação e indignação: a forma ilegítima como Michel Temer chegou a presidência; nenhum negro e nenhuma mulher fazem parte da nova equipe do governo; a exclusão de pastas como o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Ministério da Cultura, Secretaria de Políticas para Mulher entre outras. O clima era de união, muito além de qualquer divergência, união para fortalecer as lutas caiçaras, quilombolas e indígenas neste cenário que se apresenta cada vez mais difícil. “É hora de nos unirmos ainda mais...” “Temos que dar nossas mãos...” “Deixar pequenas desavenças de lado...” Estas expressões apareciam nas falas de todos, independentemente das opções individuais de lutar dentro ou fora de partidos políticos.

Ser vistos para resistir – estratégias para resolução de conflitos

Na tarde do primeiro dia, e com apoio de colaboradores técnicos do FCT, foram formuladas e encaminhadas estratégias para resolução de conflitos e ameaças específicas das comunidades tradicionais presentes. Em todos os casos, ficou evidente a importância de se avançar na documentação e caracterização das comunidades caiçaras, guarani e quilombolas da região. As questões abordadas envolvem conflitos com unidades de conservação, ameaças de especuladores imobiliários e políticos locais vinculados a esses especuladores, além de impactos acumulados de grandes empreendimentos como o pré-sal e a Nova Tamoios.

O olhar que transforma – Turismo de Base Comunitária (TBC)

Na manhã do segundo dia os participantes se transformaram em turistas, experimentando as atrações do roteiro de Turismo de Base Comunitária desenvolvido no Quilombo da Fazenda. Foram enredados pelas histórias cativantes e sábias do griô Sr. Zé Pedro. Seguiram as belas descobertas da Trilha do Jatobá. Conheceram a diversidade de árvores e frutas da roça agroecológica. Aprenderam fazeres artesanais na oficina de cestaria. Deliciaram-se com a gastronomia quilombola do restaurante da associação.

Preservar é Resistir - TBC Fazenda

Este exercício faz parte da estratégia do FCT de promover “Partilhas de TBC” entre as comunidades. Com essas partilhas de experiências e saberes, espera-se que essas comunidades se fortaleçam na construção da rede de TBC do território e na consolidação de um conceito de Turismo de Base Comunitária fundamentado no protagonismo dos comunitários. Entende-se que o turismo pode ser uma ferramenta do desenvolvimento sustentável apenas quando as próprias comunidades protagonizam a formulação, gestão e operação das suas atividades produtivas.

Saiba mais aqui sobre os roteiros de TBC do Quilombo da Fazenda.

Panorama e próximos passos

Na grande roda de diálogos do segundo dia, todas e todos compartilharam informações e opiniões construindo um panorama amplo da situação nas diversas frentes de atuação deste movimento social. Apresentaram as experiências agroecológicas de cada comunidade e pactuaram caminhos para se fortalecerem. Dialogaram sobre a situação grave vivenciada pela Aldeia Rio Pequeno e pactuadas formas do FCT apoiar a aldeia. Identificaram desafios de comunicação interna e táticas para superá-los. Avaliaram o processo de luta (próxima de uma vitória) pela criação do cargo de “professor indígena” no Estado do RJ. Refletiram sobre a situação crítica do conflito entre a comunidade caiçara da Praia do Sono e o condomínio Laranjeiras. Dialogaram sobre o Conselho Municipal de Comunidades Quilombolas de Ubatuba. Organizaram a participação no Festival da Mata Atlântica e na Caravana Agroecológica do Sudeste. Aprofundaram o entendimento sobre o decreto assinado no dia 9 de maio, pela presidenta Dilma Rousseff, que cria o Conselho Nacional dos Povos e comunidades Tradicionais.

Preservar é Resistir - Reunião ampliada FCT

Antes do encerramento, foram feitos agradecimentos coletivos para as cozinheiras do Quilombo da Fazenda (que ofereceram uma alimentação saudável, abundante e deliciosa nos dois dias do encontro) e para a Caravana Mundo Palco – artistas populares que viajam o Brasil levando expressões culturais tradicionais do Acre (por terem promovido atividades criativas com as crianças durante os dois dias do evento e contribuindo também nos outros momentos da programação). Outras manifestações culturais também envolveram os participantes durante o encontro, como os ritmos tradicionais do grupo Ô de Casa (Quilombo da Fazenda), do Fandango Caiçara (Sertão do Ubatumirim) e do Índio do Verão (Aldeia Rio Pequeno).

Laura, liderança da Associação Comunitária de Remanescentes de Quilombo da Fazenda, concluiu: “Estou muito feliz de ter vocês aqui. Isso é que nos fortalece. Receber este encontro aqui nos fortalece! Lutarmos juntos, resgatando nossa tradição de mutirão. É isto que quero para minha e todas as comunidades tradicionais.”

Colaboradores: Pedro Gontijo e Vanessa Cancian

Fotos: Comunicação FCT