Entrevista: Marcos Tupã e a luta dos povos indígenas


Marctos Tupã - Foto Marcos Estrella

Liderança guarani mbya de Ubatuba fala sobre o panorama atual dos povos indígenas da região e do Brasil

Os povos indígenas do Brasil estão em luta. Desde os primeiros dias de 2019, o desmonte da Fundação Nacional do Índio (Funai), a transferência da demarcação de terras indígenas para o Ministério da Agricultura e os constantes ataques contra políticas públicas relacionadas aos povos originários do Brasil têm feito com que mobilizações sejam convocadas, em todo país, para este dia 31 de janeiro.

Em Paraty, o ato está marcado para as 16h30 na Rodoviária (Saiba mais aqui). Para se somar à luta, a comunicação popular do FCT foi conversar com Marcos Tupã, coordenador da Comissão Guarani Yvurupa e liderança indígena da aldeia Yaka Porã (Rio Bonito) de Ubatuba (SP). Ele atende como motorista da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) e também participa do Fórum de Comunidades Tradicionais. “É importante que os povos caiçaras e quilombolas possam somar a esses movimentos porque estamos na mesma perseguição pelo governo”, alertou.

Como está a situação dos povos indígenas em relação ao novo governo?

Estamos sofrendo pressões muito fortes relacionados aos nossos direitos, indígenas, quilombolas e das comunidades tradicionais em geral. De fato, é tudo aquilo que o presidente eleito havia prometido durante sua campanha. Ele está fazendo o desmonte da Funai e, sobre a demarcação das terras indígenas, ele disse que não ia demarcar nenhum centímetro a mais de terras. Tudo que está acontecendo agora foi anunciado na campanha, como, por exemplo, cortar programas sociais. Em relação à universidade indígena, bolsas indígenas já foram cortadas e há mudanças horríveis anunciadas na questão da saúde dos nossos povos.

De Norte ao Sul do país há mobilizações para tentar conter os retrocessos, conte um pouco sobre essa luta.

Nós estamos preocupados diante de tudo isso que está acontecendo. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) tentou um diálogo com o presidente, já na equipe de transição, mas não foram nem recebidos pelo governo. Agora com a flexibilização do porte de armas, os fazendeiros podem exterminar os povos indígenas e isso está acontecendo de forma mais intensa desde janeiro.

Cerca de 200 lideranças guarani estiveram em Ubatuba há algumas semanas. Como foi esse encontro e de que forma que o município lida com a causa indígena?

Nós tivemos a honra de sediar um grande encontro na nossa aldeia Boa Vista. Chamado de “Encontro de Jovens Lideranças do estado de São Paulo e do Rio de Janeiro”, fizemos um evento com a finalidade de formar e preparar as lideranças jovens para os futuros confrontos perante a sociedade indígena. Falamos do território, da educação diferenciada e, entre outras demandas, realizamos um ato aqui em Ubatuba em que essas juventudes participaram.

Contamos com o apoio de parceiros e tivemos 2 ônibus para trazer os jovens ao centro da cidade. Andamos pela região central de Ubatuba, fomos até a praça de eventos. Durante a manifestação, vimos algumas pessoas elogiando, batendo palma em favor da manifestação e muita gente criticando, falando “dá enxada para os indígenas”, algumas falas pejorativas também nos comentários das redes sociais. A população de Ubatuba questionou o fato de nos posicionarmos contra o Bolsonaro. Palavras como “vai trabalhar”, “vocês são guarani do Paraguai” foram outras ofensas proferidas.

Ubatuba é uma terra indígena e a população ignora, certo?

As pessoas criticam, mas percebemos que há um desconhecimento muito grande por parte da população. É um pouco de descaso por parte do setor público. Eu acredito que, quando se divulga a cidade com relação ao turismo, deveriam falar dos nossos territórios, das nossas comunidades indígenas, quilombolas e caiçaras. Há pouco interesse do setor público em relação a isso.

O que houve com a Fundação Nacional do Índio (Funai) no começo desse governo?

Houve um desmonte da Funai, porque ela estava vinculada ao Ministério da Justiça e, logo que ele assumiu, passou ao ministério dos “Direitos Humanos”, sendo que a questão administrativa das demarcações ficará com o Ministério da Agricultura. O Ministério da Agricultura é composto por ruralistas do agronegócio que possuem interesse nas terras indígenas. Tudo que está acontecendo é o que ele prometeu durante a campanha.

Diante desse cenário, qual a importância dos povos da região estarem unidos nessas mobilizações em defesa de seus direitos?

São esses fatos que nos levam a nos unir por meio da APIB, em busca de fazer uma mobilização nacional em todo o território do Brasil. Queremos levar nossos povos até São Paulo para somar ao grande ato que irá acontecer por lá, levando indígenas da região.

Para nós, a importância de estarmos unidos representa fortalecer o movimento nacional, as lideranças, caciques, jovens, começar a participar desses movimentos, entender a situação dos povos unidos. É importante que os povos caiçaras e quilombolas possam somar a esses movimentos porque estamos na mesma perseguição pelo governo. Todas as sociedades menos favorecidas estão perdendo direitos. Há uma perseguição, passando por cima dos nossos direitos, nossa cultura, nossa tradição. O discurso militar da década de 60 que é integracionista está sendo colocado em prática. Além disso, há uma preocupação em relação a evangelização nas terras indígenas e que é hoje como observamos existe muita perseguição em relação as nossas aldeias, nossos pajés, nossas culturas. Tem comunidades que não fazem seus rituais próprios, há um conflito interno que se cria e enfraquece as comunidades.

Esse governo quer dividir e dar títulos individuais para cada família indígena, sendo que as terras pertencem à União, e tem todo um contexto de proteção ao ambiente, à cultura da terra, temos o direito de usar a riqueza, o que tem na terra. Isso gera segregação e desunião.

Texto: Comunicação Popular FCT - Vanessa Cancian

Fotos: Marcos Estrella/Arquivo pessoal

Editoração Eletrônica: Comunicação Popular FCT - Vanessa Cancian

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