"Quem somos nós, indígenas, caiçaras e quilombolas frente ao governo?"


FCT em Brasília

Luisa Vilas Boas relata sua experiência em Brasília em uma série de eventos e fala sobre a importância das redes entre os povos e comunidades tradicionais do Brasil


Estava muito ansiosa com essa viagem. Não é uma vigem comum quando representamos um coletivo. Existia pessoas no movimento com muito mais experiências do que eu, até mesmo vivência, mesmo sendo jovem como eu, pra ir. Representamos vidas, histórias, resistências, sofrimentos... é uma grande responsabilidade!! Espera-se muito de nós também!! Fui para dialogar com diversas redes sobre o desenvolvimento sustentável dos oceanos. O mar para as comunidades tradicionais é o nosso lar! Nosso modo de ser e viver, nossa fonte de renda. Sem o mar não somos nada! Assim como sem a comunidade, não existe desenvolvimento sustentável!

Cheguei a escutar que devemos superar essas dores do passado, causados por um projeto de desenvolvimento, que ou só pensava no dinheiro, ou que só pensava na preservação do meio ambiente. E no meio disso tudo ficávamos nós, indígenas, quilombolas e caiçaras, invisibilizados completamente, privados do nosso modo de vida, tendo que nos adaptar ao desenvolvimento imposto, sem ao menos pensar criticamente sobre isso. Por isso precisamos pensar num desenvolvimento sustentável! É preciso equilibrar os diversos interesses, mas de forma consciente e humana!

Poder estar com outras redes de conhecimentos diversos, é um caminho para esse equilíbrio! Uma rede de redes. Foi o que o seminário proporcionou. A aproximação entre pesquisadores, ONGs, comunitários, gestão pública é um primeiro passo para alcançar o desenvolvimento sustentável. Aqui destaco que poder conhecer a luta da CONFREM (Comissão Nacional para o Fortalecimento das Reservas Extrativistas e dos Povos extrativistas Costeiros e Marinhos) e da rede de mulheres Extrativistas Pesqueiras do Sul da Bahia, foi fortalecedor! Dá aquele sentimento de “ninguém solta a mão de ninguém”, sabe? Além de dar um conforto de nos vermos no outro e vice e versa.


E o que seria dessa discussão se não estivéssemos em Brasília? É outro mundo! Um mundo branco, majoritariamente masculino, com pessoas engravatadas! Nunca me imaginei num espaço como esse, falando diretamente com políticos, comandantes. Parece um mundo distante, fora da nossa realidade. Não se vê gente como a gente! É um espaço de poder que a sociedade civil não ocupa. O que é contraditório quando pensamos em um país que se diz democrático. E isso é preocupante! O povo precisa, não só escolher bem seus representantes políticos, mas ocupar o Congresso!! Precisamos estar nesses espaços de tomada de decisão, Porque a minoria que lá está não defende os interesses do povo, longe disso!! Eles falam bem, com palavras difíceis e mágicas que contornam a situação, mas no fim “a canetada final” é sempre contra o povo. Existe muitos interesses por trás, e infelizmente, esses interesses não são o da população. Então, se queremos ser ouvidos, precisamos estar lá e manter nossos meios de participação!! Precisamos ser protagonistas e parar de pensar que temos que ter gente para falar por nós! "

Relato de Luisa Vilas Boas, caiçara do Prumirim (Ubatuba/SP) que integra o Núcleo Jovem do Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT) e a equipe do Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina (OTSS)

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