Aldeia Sapukai de Angra dos Reis reivindica troca imediata da gestora da escola indígena

A população guarani aponta que se encontram desassistidos pela atual gestão em toda a luta que envolve a educação indígena e se mobilizaram com um documento que pede a troca imediata da direção escolar.

O povo guarani mbya da aldeia Sapukai, localizada em Bracui, Angra dos Reis reivindica a troca imediata da gestora do Colégio Indígena Estadual Guarani Karai Kuery Renda. Pais, mães e alunos entregaram um abaixo assinado ao Secretário de Estado da Educação, Pedro Fernandes, exigindo a saída atual diretora por conta da falta de colaboração com a causa e a luta pela educação indígena de qualidade.

"O relacionamento entre nós professores indígenas e a gestão começou a passar por alguns problemas. A diretora foi contra o nosso curso do magistério indígena, uma grande conquista de quase 20 anos da comunidade", relata Algemiro Karai Mirim, graduado em Sociologia pela UFRRJ, mestrando em Linguística no Museu Nacional (UFRJ) e fundador do Colégio Indígena Estadual Guarani Karai Kuery Renda. Segundo ele, a gestora sempre se posiciona contra todos os projetos que são conquistados com muita luta dentro das escolas indígenas de Angra dos Reis e também de Paraty.

O trabalho realizado nos últimos anos pelos professores e professoras das aldeias indígenas busca reescrever as narrativas de luta, reescrever os livros que narram a história indígena na perspectiva colonizadora e sem protagonismo. Se trata também de garantir o direito básico que é a educação. Algemiro pontua, sobretudo, que professores relataram que a diretora atual estava convencendo-os a irem contra o projeto de formação do magistério indígena. "Essa é uma conquista que travamos desde a década de noventa", reforça a liderança.

A situação alarmante e o pedido de troca de gestão se faz necessária e urgente, além de ser um pedido de toda a comunidade escolar, conta o professor. "Como que uma diretora que trabalha dentro da aldeia age contra a nossa luta? Isso vem nos desgastando e chegamos a um momento crítico de ver as nossas escolas sendo prejudicadas por essa pessoa", completa.

Abaixo assinado pede mudança

A Promotora de Justiça - MPRJ, Débora Vicente, coordenadora do CAO – Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Tutela Coletiva de Proteção à Educação do Estado do Rio de Janeiro, abriu processo com o referido abaixo assinado, na 2a Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva do Núcleo Angra dos Reis, que está sob a responsabilidade da Promotora Fernanda Coutinho.

No Rio de Janeiro, após o movimento das ocupações estudantis de 2013 nos Colégios Estaduais, foi publicada a Lei no 7.299 de 2016, que dispõe sobre o estabelecimento de processos consultivos para a indicação de diretores e diretores adjuntos das instituições de ensino integrantes da rede da Secretaria de Estado de Educação e da Fundação de Apoio à Escola Técnica – FAETEC, garantindo eleição direta pra Direção de Escola Estadual, direito ainda não assegurado às comunidades indígenas, o que se configura um flagrante descumprimento da lei.

Junto com o texto do documento que foi entregue, consta também 93 assinaturas, quase totalidade dos adultos e jovens moradores dessa comunidade, incluindo a assinatura do Cacique, do Vice-Cacique, dos Diretores da ACIBRA – Associação Comunitária Indígena do Bracuí, de todos os professores indígenas do Colégio e de todos os alunos do Curso de Magistério Indígena.

Leia abaixo o texto contido do documento:

“Nós, abaixo assinados, moradores da Tekoa Sapukai, pais e mães de alunos, professores, lideranças e alunos do Colégio Indígena, exigimos a saída da Diretora Ronia batista pelos seguintes motivos: 1- Ela vem desrespeitando nossas crianças, por exemplo, chamou os nossos filhos de “pestinhas”; 2- Ela lutou contra a implantação do Magistério Indígena, uma demanda de todas comunidade e não ajuda na solução dos problemas que surgem no curso, criando dificuldades na regularização das matrículas; 3- Ela vem dificultando nossa formação continuada, em parceria com a Universidade; 4- Ela não regularizou a escrituração escolar, impedindo que diversos alunos prossigam os estudos, pois não tem Diploma e Histórico Escolar até hoje; 5- Ela prometeu em reunião em março que o 1o Ano (Ensino Médio) iria começar até o dia 15 de março desse ano e ainda não tem nada; 6- Ela não faz reunião com a comunidade e também quase nunca está na escola daqui de Sapukai.

Exigimos também que nosso direito de sermos contratados para dar aula, mesmo estando em formação no Magistério Indígena, seja garantido, pois não aceitamos jurua (não indígena) dando aula no primeiro segment na Aldeia. Esse direito é garantido na Constituição Federal de 88.”

Entretanto, até a publicação desta matéria, o Secretário de Educação não respondeu à comunidade.

Texto: Comunicação Popular FCT

Foto: Eduardo Napoli/ Comunicação Popular FCT