Comunidade caiçara do Sono recebe Partilha de TBC da Rede Nhandereko


Preservar é Resistir - Turismo de Base Comunitária - TBC - Praia do Sono

Realizada nos dias 3 e 4 de julho, a Partilha contou com 50 comunitárias e comunitários do FCT e teve como tema principal o desenvolvimento dos negócios locais e a precificação dos serviços do TBC.

Costurar a malha de uma rede que só amplia seus horizontes e ações em busca de fortalecer a luta pela defesa do território e pela construção de um turismo pautado pelo protagonismo das comunidades tradicionais de Angra dos Reis, Paraty e Ubatuba. Mais uma vez a Rede Nhandereko, do Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT) se reuniu dando continuidade às ações do planejamento, para partilhar conhecimentos sobre precificação, valores dos roteiros e demais ações práticas ligadas aos empreendimentos do TBC.

Fazendo morada dessa vez na comunidade caiçara do Sono (Paraty-RJ), cerca de 50 lideranças e juventudes comunitárias participaram da Partilha “Empreendedorismo comunitário – ideias para desenvolver negócios locais”. Com a finalidade de intercambiar experiências na área do turismo de base comunitária, esse momento trouxe a precificação, as formas de cobrar serviços e produtos do TBC como pauta. Tudo isso faz parte do processo participativo desenvolvido pela Rede Nhandereko em busca de consolidar os planos de negócios de cada uma das comunidades presentes.

O TBC foi pontuado pelos presentes, mais uma vez, como uma ferramenta fundamental para o fortalecimento do protagonismo comunitário, possibilitando também a geração de renda e a transmissão de saberes para as gerações futuras. “O jovem sem os mais velhos não adianta porque árvore sem raiz não fica em pé”, diz Patrick Santos, jovem jongueiro da comunidade quilombola Santa Rita do Bracuí.

No primeiro dia de atividade os participantes realizaram o roteiro de TBC oferecido pela comunidade. Assim como “turistas”, foram conduzidos pelos diversos locais, conhecendo os atrativos daquele lugar. No dia seguinte, os presentes tiveram uma atividade mais teórica e descreveram por meio de tabelas os itens que compõem os roteiros pensando no custo de cada etapa, serviço ou produto oferecido.

“O nome da Rede que escolhemos significa nosso modo de ser, assim contemplamos todas as etnias. É uma palavra que fala da nossa cultura, da realidade do nosso povo local, esse é o sentido, ao mesmo tempo o nhandereko do indígena, do caiçara e do quilombola com os tambores, o jongo, a cultura, as ervas, o fandango, a produção de farinha, portanto assim fortalecemos o nhandereko de cada etnia e comunidade”, pontua Júlio Karai Xiju.

O evento contou com o apoio da Associação de Moradores da Praia do Sono (AmoSono), do Observatório dos Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina (OTSS) e da APA Cairuçu (ICMBio). Além disso, a partilha contou com a participação da parceira Tereza Mendonça, professora do Departamento de Administração e Turismo do Instituto Multidisciplinar da UFRRJ.

Resistência feminina na luta pelo território

Em meio ao contexto de luta contra grileiros e especuladores imobiliários, foi a força das mulheres da comunidade uma das protagonistas do processo de resistência em defesa ao território. Durante essa partilha, os presentes puderam ouvir de Dona Lúcia, pescadora e mestra caiçara seus relatos da expulsão de um grileiro de terra que tentou expulsar os moradores do Sono.

“Eu estava nessa época que tivemos que dar surra de urtiga e milho seco, fui corajosa entrei no meio com as mulheres e os mais jovens”, relata Lúcia sobre o ocorrido. Enquanto parte dos homens iam para o mar pescar, coube às mulheres do Sono o papel de lutar para que o território caiçara e suas culturas permanecesse.

Preservar é Resistir - Turismo de Base Comunitária - TBC - Praia do Sono

Seus saberes de mulher e pescadora também são compartilhados durante a realização do roteiro. Essa liderança e outras mulheres da comunidade são protagonistas de diversos setores que envolvem o turismo como a gastronomia, o artesanato e as lutas socioambientais.

“A comunidade tem um histórico de luta e de resistência desde meados da década de 60 e 70 vem sofrendo com a especulação imobiliária, de grileiros, assim como outras comunidades que foram vítimas do avanço, a chegada das unidades de conservação, a Rio Santos, tudo isso impactou em nosso modo de vida”, conta Marcela Albino Cananea, caiçara que representa o Fórum de Comunidades Tradicionais e a Coordenação Nacional Caiçara.

O que podemos conhecer no roteiro do Sono?

O roteiro de TBC da praia do Sono tem início no ponto de encontro perto da entrada da trilha que vai até a comunidade. Os visitantes são recebidos pelo guia comunitário e escolher o acesso por trilha ou de barco. Ao chegar na comunidade, o café caiçara – cardápio composto inclusive por alimentos agroecológicos produzidos no próprio local faz parte da recepção desse roteiro.

Após o café, Jadson Santos, liderança da comunidade faz o receptivo de boas vindas dando um contexto sócio histórico da comunidade. Em seguida, dona Lúcia, caiçara e mestra, contou histórias o um depoimento sobre a luta das mulheres na defesa do território da comunidade lutando contra um grileiro.

Depois dessa roda de conversa, um azul marinho, prato tradicional caiçara espera os visitantes. Na parte da tarde, o roteiro percorre o tacho de tingir redes de pesca, utilizado até hoje de maneira artesanal. Os vários tipos de rede e tipos de pesca, a pesca de cerco, visita aos varais de peixe seco e vai até a casa do Sr. Norvino, artesão que confecciona balaios de cipó e outras materiais colhidos na natureza e conhecem também o sistema de saneamento ecológico, feito com bananeira e permacultura.

Ao final do roteiro, uma visita à Rádio Caiçara do Sono - em que os visitantes são recebidos pelo Zaqueu, criador da iniciativa. Em seguida, retorna-se para a associação para a exibição de um curta e um bate-papo que finaliza o roteiro mostrando a luta do povo caiçara desse lugar que resiste seus saberes, tradições e seu modo de ser (Nhandereko).

> Saiba mais sobre a Rede Nhandereko de Turismo de Base Comunitária (clique aqui).

Texto: Comunicação Popular FCT - Vanessa Cancian

Fotos: Comunicação Popular FCT - Eduardo Napoli

Vídeo: Comunicação Popular FCT - Eduardo Napoli Editoração Eletrônica: Comunicação Popular FCT - Eduardo Napoli

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