Núcleo Jovem do FCT: práticas agroecológicas da farinha de mandioca

Durante os dias 29 a 31 de outubro de 2021, o Núcleo Jovem do Fórum de Comunidades Tradicionais de Angra dos Reis-RJ, Paraty-RJ e Ubatuba (NJFCT), realizou o encontro da juventude, que teve como tema: PRÁTICAS AGROECOLÓGICAS DO FEITIO DA FARINHA DE MANDIOCA.


O Quilombo do Campinho da Independência, Paraty-RJ, foi o anfitrião do Encontro da Juventude, proporcionando durante esses 3 dias, intensas trocas de saberes e práticas ancestrais do feitio de farinha de mandioca, assim como sua importância como ferramenta de luta histórica do quilombo.

Em número reduzido, o encontro reuniu cerca de 30 jovens de diversas comunidades, seguindo as medidas sanitárias de segurança e prevenção da disseminação do vírus da COVID-19.




CHEGANÇA

Pós um longo período sem se reunir, o reencontro dessa juventude porreta foi pra lá de animado! Com muita ânsia em aprender e gás pra lutar, o primeiro dia do encontro não poderia ter sido mais animado.

As juventudes foram recebidas no restaurante comunitário do Quilombo do Campinho da Independência pela liderança e Griô Laura Santos. Logo na chegança, Laura trouxe reflexões muito importantes sobre saúde, espiritualidade e lutas, além de colocar a juventude pra sacudir a poeira por meio de dinâmicas e cantos.

Não podia faltar também a apresentação da diretoria da Associação de Moradores do Quilombo do Campinho - AMOQC na figura da Daniele Elias Santos, Ronaldo Santos, Ariane Martins e Laura Santos.

Daniele enfatizou a importância da juventude indígena, quilombola e caiçara no fortalecimento do território e do movimento social. Em seguida, Ronaldo reforçou a potência do núcleo Jovem como luta política, fazendo ainda uma linha do tempo da história de luta do Quilombo do Campinho.


A FARINHA DE MANDIOCA E SEUS VALORES

A partir das falas das Griôs Laura Santos e Adilsa Conceição Martins, as juventudes aprenderam sobre a história do Quilombo do Campinho e os diferentes valores da farinha de mandioca, trazendo a importância da mesma para a luta da comunidade.

“Aqui tinha três mulheres que lideravam: Tia Antonica, Marcelina e Maria Luiza. No século 19 produziam cana entre outras. Aqui era a Fazenda Independência. O fazendeiro foi embora e eles ficaram e formaram família. Quando eles iam para a cidade era para comprar o sal. Era fogão a lenha. A gente só tinha arroz em época de festa. Tinha milho e mandioca. Colocava o peixe na gamela com sal para não estragar... A farinha a gente tinha e não comprava.” – Adilsa Conceição Martins, fala da história do Quilombo do Campinho.


“Era com a farinha que os nossos antepassados saiam daqui antes do dia amanhecer, com uma saca de 50 Kg de farinha nas costas e ir até o centro histórico para vender. Naquele tempo não tinha estrada. Na minguante ia com fifó. E eles diziam que o mato lambia a perna. .... Lá eles vendiam a farinha. Atravessavam o rio Carapitanga. Tinha que ter uma peça de roupa, para estar apresentável. Era no Centro Histórico que deixava a saca de farinha e muitas vezes não estava garantida a venda. Quem chegasse primeiro vendia e a outra ficava esperando para ver se tinha interesse. A farinha tinha que ser vendida para pagar o advogado que estava lutando em nosso benefício, mas depois descobrimos que estávamos sendo enganados...” – Laura Santos, contando sobre o valor econômico e de luta da farinha de mandioca para a comunidade.





VIVÊNCIA AGROECOLÓGICA

O segundo dia de atividades, começou com uma dinâmica realizada pelas juventudes Guarani Mbya e na sequência, as juventudes são conduzidas para a roça do Núcleo Familiar Nascimento, onde ocorreram as atividades práticas.


O primeiro local de parada foi na horta da Cirlene Barreiro Martins (Ninha), onde foi formada uma roda e Vagner Nascimento, liderança do Quilombo Campinho da independência e coordenador do FCT, relatou sobre o funcionamento dos sistemas de manejos existentes. Na conversa, foi debatido sobre os manejos tradicionais como a coivara, a relação estabelecida com a agrofloresta, e também assuntos como a importância das sementes crioulas e o risco dos alimentos transgênicos e o agronegócio.


“Roça é resistência, luta, território, modo de vida! Nosso principal tesouro é o território" – Vagner Nascimento – Quilombo Campinho da Independência


MARCO TEMPORAL

A atividade contou também com a presença e falas das lideranças indígenas Júlio Karai, da etnia Guarani Mbya, da aldeia Sapucaí de Angra dos Reis-RJ e Fabiano de Lima Silva Awa Mitã, da etnia Tupi Guarani, liderança da aldeia Renascer, situada na região sul do município de Ubatuba.


Ambos trouxeram falas a respeito do Marco Temporal, das lutas dos povos originários pela defesa e permanência nos territórios e a importância das juventudes se apropriarem das lutas.

“O marco temporal reconhece apenas as terras demarcadas de 1988 para trás. Todas as terras demarcadas depois desse ano serão revistas. Se o Marco temporal for acatado, vai trazer perda da cultura, das juventudes, que já estão muito envolvidas com o celular e a televisão e a revolta do povo. Além disso vai trazer as mineradoras, o desmatamento, a invasão e todas as maldades que acompanham o capitalismo...” Fabiano de Lima Silva Awa Mitã - Liderança Tupi Guarani, Aldeia Renascer Ubatuba-SP.”


ROMARIA DA TERRA

Por fim, Fabiana Ramos, liderança do Quilombo Santa Rita do Bracuí e integrante da coordenação do FCT, convidou as juventudes para protagonizarem na XVI Romaria da Terra e das Águas em Territórios de Povos e Comunidades Tradicionais - Bem viver: Cuidando da casa comum para que todos e todas tenham vida, que será realizada no dia 24 de abril de 2022, na comunidade do Bracuí (Quilombo Santa Rita do Bracuí e Aldeia Sapukai), que conta com a participação do FCT, em defesa da água e da terra.

A Romaria da Terra é uma manifestação mística que surgiu no Brasil durante os governos militares (1964-1985), considerada uma celebração messiânica camponesa que busca rememorar territórios perdidos à medida que aponta para novos lugares e um tempo de redenção dos pobres e oprimidos.


É HORA DA MÃO NA MASSA!

Conduzido pela mestra Magali do Nascimento (Magá) e o mestre Hélio do Nascimento (Bambu), as juventudes colocaram a mão na terra, na primeira etapa do feitio da farinha de mandioca. Foi momento de roçar e arrancar as raízes. Momento de trabalho e cooperação.

E o preparo não parou por aí! Até virar farinha a moçada teve de carregar toda mandioca colhida. Lavar, raspar e buscar lenha pra fornear.


É hora da lida, é hora de trocar, é hora de prosa, é hora de roça!

Ralá

Prensá

Ispremê

Pousá a água pra tirar o polvilho



Ainda teve muito aprendizado na casa de farinha. Desde a madrugada, até de manhãzinha.

A madrugada foi animada, teve fandango, ciranda e farinhada.

Em um momento importante de rearticulação, após 2 anos sem encontros, com paciência, sabedoria e muita tecnologia tradicional, as/os mestres farinheiros puderam passar para as juventudes que os processos do feitio da farinha de mandioca também são um modo de preparo para as lutas.

Sigamos unidxs igual o beiju, pois as nossas lutas necessitaram de muita energia e cooperação, como no feitio da farinha de mandioca!




Texto: Carolina Santos Natividade – Núcleo Jovem FCT

Revisão: Luisa Vilas Boas Cardoso – Núcleo jovem FCT

Revisão guarani – Tupã Mirim – Núcleo Jovem FCT