Reunião Ampliada do Fórum de Comunidades Tradicionais

Entre os dias 10 e 14 de maio, o Fórum de Comunidades Tradicionais-Angra-Paraty-Ubatuba realizou a sua Reunião Ampliada no Território Tradicional Caiçara da praia da Cajaíba, em Paraty. Trata-se de um grande encontro de lideranças indígenas, caiçaras e quilombolas das comunidades tradicionais da região.

Esse encontro não acontecia de forma presencial há dois anos, devido a pandemia de covid-19, que aumentou enormemente a vulnerabilidade e as dificuldades vividas pelos povos tradicionais, assim como também levou de seus convívios muitos comunitários, mestres e mestras, anciãs e anciãos que são os guardiões da memória do povo e transmissores do conhecimento ancestral que moldou seus modos de ser e viver no mundo.



A comunidade caiçara da praia da Cajaíba hoje é formada por duas famílias, a de seu Altamiro e de dona Dica, mas ali já viveram cerca de quarenta famílias, expulsas por grileiros, que derrubaram suas casas, a escola e a igreja local. As duas famílias que ficaram seguem resistindo às pressões sobre suas terras. Vivem das práticas ancestrais da pesca e da agricultura e do turismo. A praia Grande da Cajaíba só possui acesso por trilha na mata e por barco, A beleza local e o isolamento atraíram o olhar e a ganância de empresas e de especuladores imobiliários principalmente a partir da construção da rodovia BR-101, trecho Rio-Santos, que mesmo não passando próxima à essa região costeira, facilitou o acesso à cidade de Paraty, que tornou-se um centro requisitado de turismo, de massa e de luxo, este mais direcionado às ilhas e praias mais afastadas, de onde foram expulsas comunidades inteiras de caiçaras para a construção de condomínios e mansões como na praia de Laranjeiras.


A instalação de unidades de conservação como o Parque Nacional da Bocaina, a Reserva Ecológica da Juatinga e a Área de Preservação Ambiental Cairuçu também não contemplou a existência das comunidades tradicionais, que passaram a ser marginalizadas em suas práticas de vida como a pesca, o extrativismo e a agricultura, atividades que são realizadas observando e respeitando os ciclos naturais, pois disso depende a continuidade física e cultural do povo tradicional. Com o apoio do FCT, o diálogo com os órgãos ambientais responsáveis pela gestão das unidades de conservação tem evoluído e as comunidades tem conseguido desenvolver suas práticas de vida ancestrais, apesar das restrições impostas.




No encontro foram debatidas ações do movimento, estratégias e o contexto político-social-ambiental-econômico atual do país e do mundo, destacando-se o debate a respeito de ser esse um ano eleitoral e a importância de se organizar para vencer a política destrutiva de direitos dos povos originários do país. Dona Dica e Seu Altamiro contaram a história do seu povo e da luta local contra a espoliação de suas terras a partir do avanço dos especuladores sobre seus territórios, com a construção da rodovia BR-101. Uma história de resistência, de fé e de esperança e que traz ensinamentos e inspiração para as gerações que seguem dando continuidade a essa luta, mas também uma história triste de injustiças, opressões e desigualdades, que caracterizam a formação do país a partir do colonialismo e que moldaram sua estrutura atual baseada na desigualdade social e no poder financeiro que assegura privilégios a poucos em detrimento da maior parte de sua população.

Foram vários dias também de atividades práticas como um mutirão de construção da nova casa de farinha de Dona Dica e abertura de área de roça. Foi continuada a feitura das canoas de seu Altamiro, por mestre Manequinho da praia da Almada, de Ubatuba e realizada também uma oficina sobre regularização fundiária e a entrega da publicação final do trabalho do Projeto Povos nos territórios da Península da Juatinga. Celebrando a pesca artesanal foi feita uma puxada de rede na praia, também conhecida como arrastão de praia, prática coletiva comunitária emblemática do povo caiçara.































Atividades que unidas buscam fortalecer os vínculos dentro do movimento e entre as comunidades e fortalecer as lutas comuns de cada povo. São também uma forma de valorizar e ajudar a manter as tradições culturais do povo caiçara local, que enfrenta muitas restrições de uso de seu próprio território, seja pela grilagem de suas terras, seja pelas limitações impostas pelo sistema ambiental vigente.


A união dos povos tradicionais em defesa de seus territórios e de seus modos de vida é fundamental para que a luta siga firme e construa possibilidades para que a opressão histórica seja vencida e as comunidade possam desenvolver suas tradições, práticas e modos de vida de forma sustentável, tendo seus direitos respeitados e seus territórios preservados.


Pela retomada, permanência e protagonismo no Território Tradicional!


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Texto e registros fotográficos: Frente de Comunicação Popular FCT